março 06, 2007

Imprensa bege

Estudos e avaliações que demonstram a indigência da imprensa brasileira não são raros, nem por aqui [1], nem por Portugal:

A imprensa brasileira desenvolve um jornalismo que separa o informativo do opinativo, na tentativa de delimitar para os leitores seus espaços de notícia – com apuração que se coloca em seus discursos como credível e isenta – do de opinião e análise, nos quais os autores manifestam claramente sua opinião, nem sempre embasada em apuração” [2].

Na diferenciação entre “informativo” e “opinativo” a clareza sugerida pelo escrúpulo da distinção é posta em xeque a todo momento. “Informar” é aquele trabalho impessoal que levou a se noticiar por aqui com naturalidade a contenda entre governo federal e governo estadual, que parece ter sido motivada por algum tipo de disfunção cognitiva comum. Ambos saíram da mesma sala que há pouco estiveram reunidos, declarando o contrário um do outro. Que tenha se tratado isto senão com naturalidade, com nenhum estranhamento, é deixar-nos órfãos na dúvida mais elementar. Se alguém achou estranho, não disse nada. Se se levasse mais a sério as “declarações oficiais” se teria que ter parado tudo; pedir atenção, olhar nos olhos do avoado e voltar e questioná-lo confrontando-o com seu antípoda.

Esperar coisa igual é, no entanto, tão inatural que passa como se fosse nada. Isto deve indicar a importância que se dá a declarações oficiais, que pelo ar de ficção que geralmente as envolve ou o fog da prolixidade ababelada, deixa-se para lá e se começa tudo de novo, a fazer as pergunta desde o começo. É como desligar o computador para eliminar algum bug que se sabe natural de sistemas tão complexos que já se lhes pode atribuir essa mazela humana que é o esquecimento. É o que se precisa fazer para continuar tagarelando sob o manto da subjetividade e do “quaselogismo” e do “achismo” contumazes que têm uma de suas maiores características não dar conseqüências ao que dizem, mesmo quando dizem com gravidade.

Já foi dito alhures que isto dá azo a conspícuos sociopatas.

Cuidando das coisas de cá, ouvi Lasier Martins (Gaúcha Repórter de 05/02/07 às 14:57) dizer que a RBS é eminentemente “jornalismo”, porém há, como em toda imprensa, sempre uma certa omissão seletiva e crítica da notícia. E nem é o caso de um certo “Foro de São Paulo” em que vários líderes sul-americanos se reúnem, inclusive com grupos de reputação pra lá de má, que traçam juntos linhas de ação com acordo ideológico e estratégico, lavrados em atas, que são, para dizer o mínimo, coisa outra que passa como fonte de influência de decisões totalmente alheias ao parlamento nacional. De tanto ignorarem o assunto, ele acaba chamando bastante atenção. Mas não se precisa ir tão longe, desde que se tenha alguma atenção para notar o disparate da babel existente entre o discurso oficial, tergiversante, truncado, confuso, acrítico, falacioso, etc. Noto estas coisas habitualmente no tema imprensa.

É claro que isso dá indício do que se disse nos estudos que se encontra sobre o assunto, que a mídia brasileira geralmente não fala do governo ou o faz de modo muito escrupuloso, convergindo em torno de um princípio centrífugo de apuração das coisas em jogo.

O hábito até comum da imprensa, de molestar com picuinhas não se aplica ao governo de modo geral e à publicidade devida a temas críticos. Há uma cumplicidade bege da imprensa brasileira com os governantes, o que deve ser relacionar a opressões indiretas que os meios sofrem, quando não diretamente, pelo poder econômico ou, como mecanismo mais delicado, por retaliações veladas. Se não for isto, é isto de forma inconsciente, e portanto, já uma cultura da névoa, da cortina de fumaça e da desfaçatez.


Notas:

1. Por aqui duas fontes, de orientações opostas, são a Mídia Sem Máscara e o Observatório da Imprensa onde se encontra a crítica de alguma forma.

2. Lene, Hérica, & Almeida, Castro de, Alcyene, 2006. A influência norte-americana no padrão de jornalismo brasileiro: análise comparativa dos jornais A Gazeta e The Boston Globe; pp.11-12 [URL].


Nenhum comentário: