março 12, 2007

Herdeiros desnaturados

Há algum tempo as universidades perceberam que perdiam alunos devido ao ciclo básico, que afogava o entusiasmo inicial em arremedos exegéticos de segundo grau, senão de um pré-vestibular caraoquê do tipo Bob Esponja. Agora, no artigo de Roberto Macedo no JC/SBPC de 22/02/07, lê-se que o Ministério da Educação assinala com verbas extras para as universidades federais que “reforçarem” os calouros nas efemérides dos “ciclos básicos”. Tudo porque se descobriu que o que faz diferença na educação ainda são fatores tradicionais, isto medido pelos resultados das escolas brasileiras dentre as quais as escolas militares tiveram destaque. O método “mais rígido” se resume a alguma disciplina, de resto melhor que se negligencie a idéia de educação “premiada”, que faz de alunos aspirantes a uma hierarquia afetada de patentes equivalentes às divisas militares.

O primeiro colocado em diversos vestibulares, oriundo da escola militar, declarou que nas suas leituras há um leque aberto de interesses, fazendo o complemento para a educação rigorosa. Identificada a “tendência de instilar na cabeça dos alunos um conhecimento precocemente especializado já no ensino médio”, se passa a reconhecer os ciclos básicos como medida a ser comemorada, entre outras no mesmo sentido, também para evitar a escolha precoce da carreira. Isto, se não tivesse passado despercebido que esta escolha está já na inscrição do vestibular, o que torna o ciclo básico inútil para esse fim. O ciclo básico só se justifica por uma preparação dos calouros se eles pudessem escolher seus cursos após esta fase e não antes. Não estranharia que para as ciências se ministrasse roteiros de leitura de coisas basilares, Platão, Aristóteles, Descartes, pelo menos, e leituras gerais, que são a origem ocidental da ciência que cientista nenhum lê. Aí sim; por isto (por esta negligência) pode-se identificar que há uma especialização dos cursos para a técnica (quando muito, senão a mera administração de carreiras) em vez de o fruto de um pensamento que irá se declarar, mesmo sem devê-lo, no futuro, descendente da tradição científica iluminista, helenista e latina.

Tópicos:

1. O Especialismo se caracteriza pelo contrário, por um corte em relação à tradição, o método de pensamento científico do século XX se confunde com a prática científica. Ora, isto não pode ser um conhecimento do que se faz, é um “fazer” apenas. A descoberta científica vem no curso de um esforço comum como fruto “do seu tempo” – idéia autocontraditória, pois o fluxo normal das coisas não poderia mudar sem questionar as bases mesmo de um fazer atual pela análise apenas deste próprio fazer.

2. Sócrates, no Fedro, declara a respeito da tradição mitológica, coisa desinteressante que só espertinhos se meteriam a tentar “interpretar”. Esta é a prática do “desmistificador” científico. Mas primeiro as coisas que vêm primeiro, que é, o que Sócrates tinha por maior valor, o “Conhece-te a ti mesmo”. O melhor que se fez, para atender a este aforisma fundante, foi um esquematismo enfadonho rotulado de Epistemologia.

3. A polarização entre Ciência e Deus vale-se de #2 em defesa da Ciência, sem atentar para o que diz Sócrates. Como pode negar-se a ciência a uma reflexão de Deus se no curso desta é que foi construída toda a tradição rigorosa do pensamento ocidental que redunda na ciência moderna? E, portanto, toda a base do aforisma socrático “Conhece-te a ti mesmo”. Negligenciar Deus é negligenciar a exegese do pensamento rigoroso e da verdade, que fundam o espírito científico atemporal; é negar-se ao conhecimento do conhecimento, do conhecimento do que sabemos fazer e do que sabemos ver. É negar a ciência na base e erigí-la, de novo, sobre seus próprios escombros.


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