março 19, 2007

Esquizitices metafísicas


A esquizitice do bicho achado num mercado de peixes na Indonésia, veja aqui, cuja espécie nunca havia sido descrita, é de família. O grande grupo dos tubarões tem algumas raridades célebres como o tubarão-enguia (um fóssil vivo filmado há pouco no japão) e o gigante tubarão cego de mares profundos e gelados, um gigante cinza escuro que mais parece uma rocha errante, de um tanto incerto de formas igualmente bizarras.
O interessante aparece mesmo o destaque dos dois elementos arquiteturais básicos das arraias. É uma síntese de necessidade e de melhor, que é a busca da forma ideal, que existe contra a resistência das leis da física. As propriedades plásticas destas cadeias de carbono complexas de que se vale a vida parece que são eficientes em absorver a resistência física e distribuí-la de modo a dissipá-la em uma esteira turbulenta, que fica para trás. No mais, os animais não passam de sacos de vísceras com olhos.
Senão, vejamos: 1 – olhos baços, lembra a vida inconsciente, a vida como força primitiva; 2 – o “núcelo por trás dos olhos”, é a parte das vísceras e do sistema nervoso, que tem uma cauda que afina abruptamente ligada a ele; 3 – por fim, a membrana natatória circunjacente, marginal ao corpo visceral, que assume uma forma precisamente geométrica, um pouco parecida como as cúpulas russas aceboladas ou, mais correto ao simbolismo, com a forma da chama de uma vela, perfeitamente simétricas (bilateralmente), com assimetria longitudinal. Quando se separa as partes, vê-se bem isto as duas coisas.
Mais curioso que tudo, parece ser a linha da ponta mais adiantada da arraia, onde a simetria bilateral se junta com a ponta da cauda, que é a “linha” de convergência da simetria bilateral. É a linha narrativa do bicho, o qual “se explica” ao longo dela, ou onde ele encontra sentido estrutural, arquitetural, ocorrendo o sentido funcional como delonga excêntrica a este eixo. Abusando um pouco dessa metáfora da narrativa, do “bicho-narrativa”, é como constituir o sentido do bicho pela resistência que a capacidade expressiva da língua ofereceria à narrativa. Não é o caso de, no entanto, de construir um bicho-narrativa para entender o verdadeiro, mas distinguir o que é elemento essencial da natureza da vida, sem descrevê-la como coisa orgânica e material. Isto é coisa que deveria tratar uma paleontologia metafísica. Enunciemos, então o esboço da Primeira Lei da nova ciência: “O ser [animais] se constitui a partir de um centro ou eixo que é a medida da unidade do ser em relação com uma identidade constituida pela amplitude da excentricidade alcançada do ser em relação a essa linha”. Essa esquizitice que se enunciou coloca em relação a necessidade de um centro ou eixo de unidade, que é, a propósito, a forma universal da unidade que se arroja mundo afora, ou, em outras palavras, que se exprime como res extensa, com a necessidade ou premer do mundo físico, que lhe inflige o seu caráter (que é identidade).
A unidade do ser está em relação polêmica com a sua identidade – o que lhe constitui o seu caráter –, que resiste ao mundo. Algo como uma força coerciva da existência parece que une o que naturalmente permaneceria disperso – moléculas, átomos, etc. Faltaria pensar qualquer coisa como um sopro de ordem dinâmica para constituir a vida, além do que ela tem que degenera com o tempo. Um impulso inicial. Mas depois mesmo este se detém por alguma força que lhe resiste. Pequenas luzes que se apagam como apagam-se fagulhas de fogos de artifício cuja existência dura o breve curso de uma parábola feita no céu.

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