fevereiro 28, 2007

Tecnologias de um admirável mundo novo

Finalmente se encontrou o que sustente aquela propaganda que diz “Ler também é um exercício” (do governo federal, se não me engano). Não me ocorre agora nenhuma tabela de conversão de calorias/abdominais ou calorias/tempo de corrida, etc., que compare-as com as calorias que se perde lendo. Mas claro que não é disto que se trata, mas da comparação em si mesma. Onde se lê pouco, para que coisa tal faça sentido, só comparando a algo que se possa reconhecer facilmente. A medida certa é a medida comum, a medida certa, que não coincide necessariamente com a medida justa ou mesmo com a medida da verdade, é aqui o exercício físico. Poder-se-ia fazer essa comparação com o próprio dinheiro, tipo “Ler rende juros de 10% ao ano” ou, “Ler agrega valor à comodite “pessoa”!”. A questão aí é que esse tipo de comparação não funciona. Ninguém vai à academia (que ninguém se engane, não é a de Platão e Aristóteles) malhar porque isto lhe resulta em desejáveis músculos, pois seus fins são tê-los como meios da atenção alheia. Músculos são moeda de troca, não um fim em si mesmos. Sedutores obesos e sebosos seriam promíscuos se fosse possível sê-lo como tais.

Já esperar desenvolver músculos no cérebro com exercícios, identificando o processo à leitura, é uma comparação inadequada. Se bem que é verdade que a leitura não deixa que atrofiem músculos virtuais nossos, se, por outro lado, leitura for o ato de ler como ir de palavra em palavra, de página em página, atravessando o livro até o seu fim, para começar outro, criar-se-ia o hábil hábito que tem um trem de escolher para onde vai. Ler errado dá calo na cabeça e abobalha. O caso, ainda assim, escapa do que se propõe, desde que a leitura visa promover o entendimento, enquanto a academia fisiculturista visa a aparência. Por acaso corre melhor o fisiculturista? Nada melhor? Salta melhor? Adquire ele alguma técnica? É mais saudável? Nem vale dizer que se trata do exercício olímpico, ou de um esforço igual, pois se a força é premissa do hábito atlético, a técnica e a destreza hábil são atributos maiores que a idéia boba do “exercício”. Assim se parece.

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No fim dos exercícios não está a saúde e a boa forma, uma vida feliz e longa, assim como no final da leitura não está o entendimento.

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Por aí se deve tentar entender o artigo do biólogo Fernando Reineck, onde ele descreve o experimento em que, por simples simulacro, vê-se desenvolver áreas do cérebro – como o exercício qualificado que os pugilistas fazem à frente da sombra. No caso, trata-se de um exercício ao piano. Ao se constatar a evolução da atividade cerebral em regiões exigidas pelos exercícios, já colhendo alguns frutos à prática hábil; não sendo bastante isto, “os cientistas resolveram verificar se é necessário executar o movimento para que as alterações ocorram ou basta imaginar o movimento”. Pediu-se que se imaginasse apenas o movimento dos dedos, sem movê-los. Concluiu-se pelo que se observou que mesmo sem mover os dedos, o exercício surtia efeito, “demonstrando que somente o ato de imaginar o movimento da mão é capaz de alterar a estrutura do cérebro”.

Mas aí lê-se algo que deixa uma impressão não muito boa – diz Reineck no JC:

As implicações desta descoberta são enormes. Atualmente, muitos cientistas acreditam na possibilidade de utilizar exercícios mentais para modelar nosso cérebro, da mesma forma que utilizamos as academias para modelar nossos músculos. Ainda não se sabe se essas técnicas são efetivas no tratamento de doenças mentais”.

Seria possível modelar áreas do cérebro para desenvolver algumas atividades, como competências técnicas comparadas a ferramentas bem ajustadas. Isto não garantiria, por certo, competência maior que a que dá a leitura dinâmica, e que saiba, não se dá a ela maior poder de entendimento senão aquele do próprio ato de leitura – o que fica melhor como discernimento cognitivo.

No Fedro (268), Platão deu o exemplo de alguém que chega anunciando-se em condições de praticar e ensinar a medicina pelo seu domínio prático de técnicas médicas correntes, bem como, em outros dois exemplos, diz o mesmo de quem quer pela afinação de cordas chegar a dominar a arte da harmonia, ou pelo manejo da escrita chegar à arte dramática, que são, no entanto, conhecimentos preparatórios e não a própria arte que se busca alcançar.

O problema todo não está em se tentar fazer da escaramuça um instrumento de modelamento ou aprimoramento do cérebro como o faz o pugilista frente à sombra, e daí também o que vale para o exercício objeto da experiência descrita, que apresenta benefício para o seu adepto. Daí a querer “modelar nosso cérebro, da mesma forma que utilizamos as academias para modelar nossos músculos” é já arriscar-se a formar atletas intelectuais truculentos e inconscientes.

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A coisa toda não é nova, principalmente no desenvolvimento da leitura dinâmica e, em particular, que me ocorre, o trabalho do psicólogo Samuel Renshaw (1892-1981), a quem se atribui ter treinado soldados para identificar o inimigo numa fração de segundo durante a II Guerra Mundial.

A técnica como sempre é bem-vinda, deve-se desconfiar, no entanto, dos seus usos e do uso das palavras quando feito displicentemente, como “modelar” e “tratamento” aparecem no artigo de Reineck, até que, antes disto, se defina que conhecimento se quer, como ele deve ser, e o que são doenças a tratar, a que pessoas tratar, quando e por quanto tempo; etc.. Aliás, ao que já Platão se referia objetando ainda no Fedro.

No Admirável mundo novo, Com um centímetro cúbico [de “soma”] se curam dez sentimentos lúgubres” é o que parece que a medicina, esta que quer modelar nossa saúde, resolveu que era bom. Na última biografia que saiu sobre o João Cabral de Melo Neto, o autor relata o sofrimento do escritor diagnosticado como depressão o que ele próprio entendia como um sofrimento existencial, que os médicos queriam tratar com antidepressivos. Curar um estado de espírito, que manifesta mudanças químicas no cérebro, como caso de desequilíbrio químico anterior, é inverter tudo. E abre precedente para se pensar os riscos de modeladores da estrutura cerebral, por estímulo artificial, para, como se faz com programas de computador, introduzir no HD “habilidades” tantas, rapidamente. E retirá-las, quando se quiser, e repô-las outras vezes.

No caso do João Cabral, o sofrimento auto-impõe-se à consciência, que dele não quer se apartar por meios evasivos. É indigno de um homem consciente o recurso ao expediente químico. Um mundo de laboratório já se esboça como política de massa, e só mesmo João Cabral de Melo Neto para se justificar a si próprio sem ser menosprezado pela velhice e pela ranzinzice. Nele, ver-se-á consciência; no homem médio, moléstia. É coisa que se esboça vez por outra como sociedade ideal, onde os problemas superam-se por uma nova técnica que transforma o homem, que prescinde da consciência individual. É o “homem-mundo”, tão natural quanto uma reação química, para a qual os mesmos valores serão a medida, à mesma polícia um controle análogo dos radicais livres, oxidantes marginais – novos Prometeus – de um mundo de paz orgânica.


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