fevereiro 01, 2007

O grande ainda maior e incontido que se agiganta

Por certo que não dá para dizer “Nada declaro!” sem declarar alguma coisa, que é coisa auto-evidente; porém, se a negação de algo auto-evidente leva a absurdos enérgicos, a negação do óbvio leva sempre a disparates que, ao seu modo, são evidentes por contraste. É o que acontece no caso relatado pelo noticioso Mídia Sem Máscara, leia aqui, onde a frase “governo chinês” vem sendo censurada em websites oficiais chineses. Se você digitar “Mao Tse Tung” aparece a menssagem “informação ilegal”. O mesmo ocorre com outras palavras “sensíveis”. O Partido Comunista Chinês pode ser reconhecido pelo codinome Wei-Guang-Zheng – isto é, o Grande-Honorável-Justo. Ora, parece óbvio que esse tipo de filtragem tende a se exorbitar ao infinito, e tudo que se exagera ao absurdo acaba por não dar conta das conseqüências. Começa que o simples fato de se proibir a frase “governo chinês” já evidencia que se pretende restringir qualquer pensamento “equívoco” de que possa existir, por força lógica, outro governo que não o chinês. Se alguma coisa se afirma desse modo, negando que se identifique um óbvio “governo chinês”, é para preservar-se de que ao ser governo possa também não ser governo. Como se vê, defender a si próprio é, ao mesmo tempo, mostra de um esforço por permenecer o que se é. Essa força de resistência ocorre contra o que ele não quer que aconteça, que é, neste caso, deixar de ser governo. Só pode mesmo ter que sensurar a expressão. A repetição incessante de um nome evoca o seu contrário? Chama-se o que existe em oposição ao que não existe – que não tem nome. Quando evocamos nosso nome, evocamos um “deixar de não ser”. O governo chinês quer permanecer inconsciente na mente dos chineses, quer ser confundido com um pensamento habitual e desatento ou com um instinto. Mas quando não é assim, entra em contraditórios “erros técnicos”. Quer ser o próprio povo indiferenciado e inconsciente, cavalgando as costas do gigantesco dragão onde, como outrora na terra ecúmena dos medivos, habita o homem de Beijim. A máxima comunista que identifica povo e partido é um agourento espírito do tempo colhendo consciências à massa burocrática informe. É interessante acompanhar as tentativas chinesas de controlar a Rede, sob o pretexto dos mais altos valores da cultura chinesa. Estas coisas podem ser úteis em reinos de tentáculos nem tão fortes, porém bem mais longos e de indistinta trama.


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