fevereiro 22, 2007

O comprido pescoço da ficção ambientalista

(Um caso de criptozoologia ambientalista.)

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No artigo acima, da Zero Hora, o ex-Diretor-técnico da FEPAM diz que foi demitido por punir a Utresa, enquanto o atual presidnete , o Sr. Breuning, declara que Müller, apesar de competente, estava “atarefado demais”. Deve-se supor, como fizeram Caren Baldo e Eduardo Rodrigues, que assinam a reportagem, que por estar aterefado demais, a troca do diretor técnico melhorará a situação de trabalho de Müller. Isto é certo, o que não é certo é que o próximo diretor terá condições melhores de trabalho. Um belo argumento, como se pode ver.

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Teria Müller saído por punir a empresa que se concluiu que contribui com uma parcela dos 8 ou 11% do que cabe às empresas na poluição dos Sinos, sendo que os restantes quase 90% sendo atribuídos à 20.000 emissários de esgoto sem tratamento que correm direto para o rio?

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Outra justificativa, de grande vacuidade, é declarar que Müller “não estaria dentro do perfil desejado”.

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Que caráter é esse do perfil de Müller que o desqualifica? Por que motivo, contexto, estratégia ele está fora do perfil “desejado”? O ex-Diretor está desqualificado pela nova presidência da FEPAM, mas para apontar este traço de perfil que o distingue, temos do argumento dos atores um imbróglio de meias-palavras. Müller, como diz a reportagem e como concorda Breuning, é um profissional competente, mas, segundo ele, “estava atarefado demais”,

senão, que parece ainda pior, declarar que o então diretor-técnico não mais se enquadrava num suposto “perfil ”. Ora, se cometeu prevaricação ao se comunicar com o dono da Utresa, que é do que o acusam, como pode entender-se que se o exonere por estar por demais “atarefado”? Ele cometeu um crime, senão pelo menos um deslise ético grave (v.g., tráfico de influência).

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Quer dizer que para justificar a saída de Müller da FEPAM, o atual presidente, o Sr. Breuning, optou pelo “perfil inadequado”, senão quem sabe, por aquele estar muito atarefado, ao dossiê que tinha em maõs?

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Por que, raios, é política a escolha de representantes fiscalizadores? Que, por certo, são (ou deveriam ser) cargos de carreira.

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Por que “Fundação”, se o cargo é político?

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Por que raios isso não parece estranho?

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Há que se esperar ainda pelas empresas imputadas pelo MP e, se não se esqueceu, dos técnicos do Estado que assinaram as licenças dias antes do flagrante à Utresa e Cia.

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Termos vagos como “nova gestão administrativa” não dizem nada, são obscuros e devem conter, por falta de opção, a tergiversação maliciosa das coisas que não podem ser ditas. Velhacaria travestida de tecnicismo, que, surpreendentemente, a imprensa reproduz como se fossem coisa válida para uma versão oficial; são os formalismos ocos, que se mostram como se fossem fatos por si mesmos. É o embuste da instituição brasileira.

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Cargos políticos, licenças pro forma, sistema complicado e demorado, falta de rescursos, ações eventuais e pirotécnicas, estratégias jurídicas que antecipam ações dos emprendedores, e coisas outras, e a Democracia vira ficção de direitos sem nenhuma possibilidade de chegarem a ter conseqüências sérias. Lembrando o post passado: “[Nós, brasileiros, estamos carregados] de direitos, sem nenhuma possibilidade” – Olavo de Carvalho.

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É possível acreditar-se que a flatulência de Nessy (o mítico monstrengo escocês do lago Ness) possa ter matado os peixes no rio dos Sinos, desde que passa a ser válido qualquer coisa pelo princípio oculto que permite que o embuste cause algum efeito tranquilizador na população, redundando na suspensão da descrença amplamente válida a qualquer coisa que nade pelas mesmas águas ficcionais.


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