fevereiro 19, 2007

Jornalismo ababelado

Vem ocorrendo na imprensa, com certa freqüência, uma comutação espúria como principal artifício de qualquer coisa informal que se identifique a uma “hermenêutica jornalística”. Nesta curiosa praxis, relata-se o que se especula como se isso fosse mesmo uma regra das possibilidades contida na prática jornalística. Dizer “As mesmas palavras” significa a mesma coisa que “As palavras mesmas”? É uma dinâmica do ababelado, que junta de uma algaravia o sentido dos enunciados pelo arranjo possível que pode haver nela. É o ardil das tensões: interpreto algo errado para emitir a opinião de que não acredito nela, deixando, todo caso, esta tensão de que pode ser. Na Rádio Gaúcha, 13:15 de 04/02/07, no “Sala de Domingo” [fala Nando Gross]: Mano critica Carlos Eduardo, dizendo que ele tem que ser mais jogador de futebol e menos boleiro (reproduzido de memória). Mas não notei nada mais forte..., termina ele dizendo, coisa nesse sentido. No jogo o contexto é o seguinte: Perguntado se o jogador Carlos Eduardo poderia jogar mais, Mano diz: Ele é um boloeiro talentoso, mas agora deve apreender mais sobre jogar futebol, que é algo um pouco mais complexo..., fazendo um comentário a respeito da evolução do jogador que acaba de surgir e ainda tem o que aprender.

Longe de uma crítica, o técnico de futebol estava respondendo a um questionamento sobre o desempenho, que foi bom, de um jogador que poder chegar a ser ainda melhor. Houve, na pergunta jogada verde, o rearranja das palavras declaradas e, por ela, julgou-se que o sujeito disse outra coisa. A interpretação, que não creio ser de má fé (o que talvez seja pior), parece puro hábito semi-consciente que chega por um monólogo de especulações às suas conclusões mordendo o próprio rabo.

Coisa igual – e, ao que parece, é bem mais comum do que se quereria aceitar – ocorreu no caso em que um jornalista escreveu na “Seção Radar” da revista Placar que Abel Braga, treinador do Colorado, estaria sendo sondado para ser técnico da seleção olímpica. Bem, essa história preencheu boa parte do dia 04, domingo, mas daí, na falta de qualquer confirmação ou coisa que merecesse ser ouvida, e já começando a dar sinais de exaustão, aproveitou-se, como se por um último esforço ventríloquo, para especular “se” Abel aceitaria, “caso” a notícia fosse verdadeira (!). Perguntado sobre, disse que não especularia sobre propostas que não são oficiais. “Não houve um convite oficial” significa para o nosso jornalismo, pelo termo “oficial”, poder haver um convite, e, pelo mesmo termo, uma porta para conseqüências; ou, que no caso de haver um convite, ele poderia aceitá-lo. Resumindo tudo; uma falsa notícia veiculada na imprensa gerou atenção à mera possibilidade de um convite para que o técnico Abel, que poderia aceitá-lo, assumisse a seleção olímpica, o que o tiraria do Colorado.

Antes mesmo de testar a notícia, já se está analisando as conseqüências, o que é claro, é o que interessa, se não fosse tudo ficção. Trata-se, portanto, não de informação, mas de noticiar, na falta do fato, o efeito possível mesmo ligado ao fato, o que inclui o absurdo da tagarelice ou qualquer outra forma de logro.

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Para não dizer que é tudo miudeza azeda, está aí, que soube pelo livre vagar, coisa igual, do blog gropius.org, onde no postA linguagem dos jornais” (15/02/07) se estranha que a tagarelice encontre, ao voltar-se sobre si mesma, o que falar sobre o que fala e, com algum método, noticiar o que não houve.

Escreve: [na linguagem jornalística dir-se-ia que] “[a] Força Nacional de Segurança deverá ocupar a favela do Macaco Borrado por tempo indeterminado”, quando tudo não passa de um esdrúxulo talvez aconteça que se estará e por quanto tempo: “A não-informação tornou-se informação num passe de mágica”. Tudo porque os fatos são opressores, restringem a liberdade ao final de contas; têm aquele atributo ontológico, a “subsistência”. Mas daí já a se encontrar na sua subsistência a potência da distância, é magia negra da braba.

O comentário único (suponho de um estudante ou ex- de jornalismo), de “Chiuso”, o corrobora:

Poderá, deverá, cairá, derreterá as geleiras e as calotas polares SE a temperatura aumentar. Haja subjuntivo e conjunção subordinativa condicional. Pior que na faculdade dizem para usar verbos de ação e no presente. Mas como fazer isso se as notícias estão mais para previsões do que fatos concretos? O jornalismo virou um grande horóscopo[grifo alheio].

Pior do que “previsão” é tagarelar desenfreadamente e, por algum tipo de delay mental, conjecturar sobre o palavreado até conseguir encontrar efeitos e ir averiguá-los (Hahaha).


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