fevereiro 20, 2007

A experiência clarividente da razão atenta


Foi uma intuição, como explicou o próprio goleiro. Aos 43 minutos do segundo tempo, com seu time perdendo, nenhum jogador cobra pênalti colocado” (L.H. Benfica).

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Mas Saja já tinha defendido em outra oportunidade, na final da Copa Mercosul 2001, um pênalti do mesmo atacante, Ramírez.

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Então Saja teve a intuição de um pensamento, que lhe ocorreu de pronto. A intuição nesse caso tem a forma de uma hipótese. Parece que o “sexto sentido” de Saja é a capacidade de usar suas experiências passadas para tomar decisões sobre coisas que estão prestes a acontecer, já quando identifica a condição de uma situação como indicativa de coisa já conhecida. Dilui assim a incerteza do futuro, o que lhe favorece a ação. Outrora chamava-se a isto razão.

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São os cincos sentidos, o paladar, o tato, o'lfato, a'udição e a visão, o sexto deve ser algo que transcende o caráter que é comum aos primeiros cinco (que é a mera reação física), o que é perfeitamente razoável que se o identifique à razão e assim se a'tribua pelo poder de “ver” sem precisar dos olhos, a chegar ao antendimento mediato, que é coisa outra que podem aqueles.

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Juntar, todavia, “pensamento”, “intuição” e “sexto sentido” para explicar as coisas é fazer uma bagunça grande e, com sorte, contar com a “amnésia dinâmica” do leitor para que ele não junte as coisas, mas apenas as tome isoladamente no texto. É bem verdade que intuição quer dizer, vulgarmente, o conhecimento imediato de qualquer coisa remota e, acrescente-se, o que também se atrinbui intuitivamente (com a pior intuição), o que está fora do alcance do que pode ser apreendido racionalmente. O motivo pelo qual a isto não se identifique a razão, que apareceu, como pensamento, de pronto, dando informações da situação atual e as condições para se decidir algo, só pode ser explicado por pura falta de intimidade com o pensar e seu rigores e encantamentos. Está-se a pensar por lugares-comuns, por hábito, que é o que identifica a intuição a um “sexto sentido” transcendente além dos sentidos e da razão.

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Curioso aí é que em vez de se reconhecer que além dos sentidos se encontre a coisa mais sutil que é a razão, vá-se buscar, sem reconhecer os méritos desta, uma intuição transcendente para explicar decisões acertadas. Aceita-se melhor a magia das palavras que o teor disciplinador da razão; que ao poder do encantamento das palvras estejamos mais suscetível, portanto, não espanta.

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Saja “intuiu” o pensamento de que as coisas se passariam, por razões implícitas, de um modo e não de outro. O pensamento ocorre sempre de forma intuitiva. Quando pensamos, intuimos o pensamento e intuimos que intuimos. Saja pensou a lógica implícita nas condições de jogo de como tudo transcorreria.

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O fato de que seja motivo de notícia (ou, destaque) algo que se identifica à “intuição” e a qualquer coisa incomum nela, deve-se tanto ao estranhamento de que coisa semelhante exista com esse poder, por não ser de uso comum o pensamento atilado, seja porque quem o praticou tenha conseguido dizer o que se passou com ele naquele momento, que não é lá coisa que os repórteres de campo ouçam constumeiramente dos jogadores. Que lhes pareça, quando ocorre, qualquer coisa como um “sexto sentido”, é porque já não se o reconhece nem junto às sensações, nem à dor ou à emoção, e que, por isto, fica-lhes entre as coisa incorpóreas dotadas de certo poder mágico, capazes de, subitamente, permitir decidir a uma ação em vez de outras.


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