fevereiro 11, 2007

Concentração

Paulo Roberto Ferreira, árbitro da partida Grêmio Barueri vs. Rio Claro, Estádio Schimitão, abertura da quinta rodada do Campeonato Paulista da Série A-1, dando início ao jogo SEM A BOLA

*

Pode imaginar-se coisa tal como estar ausente o centro do mundo? Qualquer um que joga bola sabe, mesmo que seja de forma intuitiva e semi-consciente, que o mundo gira em torno de um detalhe especificíssimo do jogo. Esse detalhe é “a bola”. O centro do mundo é a bola na atenção do jogador ou do peladeiro. Quem vê a bola vê da periferia, numa periferia qualquer, tanto mais periférica quanto mais distante do centro. É claro que se isto vale para quantos joguem, e para tudo também quanto exista alheio ao jogo, a bola é, por força cosmológica, o centro do universo da atenção do jogador. Um jogador que começa seus exercícios e não tenha sequer pensado uma vez que fosse na bola, não deve saber exatamente o que está fazendo e, provavelmente, entra em campo para desempenhar uma função tática e, se muito, interagir só quando necessário com a bola. Para o peladeiro, por outro lado, esta alienação em relação ao centro cosmológico do mundo da atenção é impensável, pois do contrário o futebol resumir-se-ia a correr um pouco aos fins de semana, sem pretensões esportivas mais elevadas, que geralmente pedem aptidão física e plenitude, ou desenvoltura atlética; concentração, imprescindível para desenvolver a consciência (é desejável que seja o mais ampla possível), e vice-versa – residindo nessa inversão um dos pontos mais importantes e um dos mais negligenciados para a prática hábil. A consciência amplifica a concentração. Aí chegamos de novo ao centro do mundo esportivo, que, no caso do futebo, é a bola. Completa-se este esquema com a aplicação tática, que quando existe equivale as ações aos três primeiros critérios. De outro modo, o time mais organizado, ou de tática mais adequada à escaramuça desportiva, leva sempre ampla vantagem.

Os jogadores orbitam a bola física e mentalmente. A disposição das coisas num jogo de futebol cria aquela tensão que é a dinâmica do esforço pela harmonia entre a posição relativa da bola em campo com a posição relativa de um esferóide imaginário que jaz no diafragma do jogador como que se pendurado por uma haste de peso insignificante e atrito ideal igual a zero amarrada à altura da glote, a qual oscila quando o jogador se move como um prumo, e que representa o equilíbrio do jogador em relação à posição relativa da bola de modo que ela idealmente permanece ao alcance dele sem estar ao mesmo tempo ao alcance de qualquer outro jogador. Esse “balé de tensões” é, dito de outro modo, o “eros” do jogo. O tanto quanto se consiga isto, é a medida do bom jogador e do melhor jogador.

A “concentração” é, portanto, o sentido todo de uma boa jogada, enquanto se traduz em equilíbrio, desde que coloca a bola como centro dinâmico pelo qual se deve estar em melhores condições que o adversário. Admitindo um jogador perfeito, ele conduziria a bola sempre, na velocidade permitida a um homem, até a meta, sem que ninguém conseguisse sequer tocar na bola. Isto não significa que nessa jogada ideal a bola não tenha passado pelo pé dos demais jogadores do mesmo time. “Concentração” vem do Latim com- “junto” + centrum “centro”, que originalmente tem o sentido de “trazer a ou vir a um centro comum”, que é “estar em relação a um centro”. O sentido de “foco mental” é só de 1860. É a relação de que o centro é algo que está na atenção e pelo qual se forma a consciência do cunjunto das coisas em jogo. Ora, não é possível desenvolver a concentração sem a consciência (e vice-versa), que é a capacidade de unir num “todo” e de perceber este todo e de agir de acordo com a consciência da totalidade que a atenção faculta.

Nota técnica
Imagens da TV Globo, modificada da reprodução do estadao.com.br em notícia de 31/01/07, 19:08.


Nenhum comentário: