janeiro 17, 2007

Quase ético

Passou-me despercebida a matéria “Quase lógico” da Revista Língua nº10/2006 (pp. 44-5) sobre o modo de falar do presidente Lula, assinada por José Luiz Fiorin, professor de Lingüística da USP. Ele explica as críticas ao discurso “quase lógico” do presidnete no artigo com o mesmo título, e sob o subtítulo “Definição imprecisa de recurso retórico alimenta preconceito contra o presidente Lula”. Entre outras coisas, o autor defende a “quase lógica” na perspectiva de uma estratégia comunicativa do tipo que nos utilizamos no cotidiano. Coisa como “X é corrupto; afinal, todos os políticos são corruptos” é considerada na categoria dos “raciocínios preferíveis... [da Retórica]”, que são “...aqueles cuja conclusão não advém imperiosamente das premissas colocadas”. Até aí tudo bem; não fosse, por outro lado, existir uma grande diferença entre usar raciocínios “preferíveis” e preferir não falar a verdade. Daí a colocar isto sob a perspectiva de que há preconceito contra o presidente pelo modo tosco com que se comunica e jogar a explicação para o lado de uma “definição imprecisa de recurso retórico” é, no contexto dos fatos recentes, coisa pra lá de licenciosa.

Texto enviado à seção “Cartas” da revista Língua Portuguesa dia 17/01/2007:

Raciocínios “preferíveis” são aqueles usados para quem compartilha algum entendimento sobre eles: nem muito simples, porque não se os aceitaria, nem muito complexos ou específicos que não se os alcançasse ou reconhecesse. É essa a crítica que recai sobre o presidente, que se deve acompanhar no contexto onde a imagem – e o marqueteiro sabe disso – é mais importante que os argumentos ou o domínio dos assuntos. Sim; é retórica a quase lógica do presidente, o que é explicável por um lado não é, no entanto, defensável para o debate público. Admitir a confusão do palavreado pitoresco de uma “razão prática” na boca do presidente da república é já querer que o presidente não tenha que fazer qualquer esforço para se comunicar com a sociedade, senão ao modo daquele outdoor que se espalhou pelo país onde uma criança tentava tocar o candidato. Discurso assim é ambiente de totalitarismos – do domínio retórico da imagem e onde se instala o “preferível” por decreto. É claro que a imagem do presidente se trata de uma estratégia retórica, nem por isto se deve aceitar um comportamento quase ético porque se o identifica a um discurso quase lógico que já se está propenso a aceitar de antemão dentro da validade de uma estratégia contumaz de termos preferíveis. Inúmeras vezes é preferível aos políticos tergiversar que falar a verdade, e isto não é uma expressão quase lógica, é o fundo do poço em época em que o Supremo permite que um inquirido não diga a verdade em depoimento a uma CPI. Não se pode admitir que convicções, crenças e preferências desarazoadas entrem no debate público de forma incólume; é, pelo contrártio, contra estes expedientes que o discurso público se faz. Salvo interesses outros que interferem com as melhores razões. Quando o presidente disse ao final do ano que já não estava pensando em 2006, mas nos anos que viriam, mostrou-se, como de costume, pródigo em expressões que se valem de fragmentos do tipo “pensar para frente”, “tomar todas as medidas”, fazer “mais”, ou fazer com que se “possa” atender isto ou aquilo, que de modo tão geral justifica a crítica ao caráter de sua estratégia comunicativa. O mesmo vale para as aparições públicas onde, nos casos de corrupção recentes, ele tentou transmitir otimismo e firmeza mesmo contra os fatos e sem nada se valer de modo que os tornasse objeto de uma defesa em termos preferíveis. Mas é ingênuo quem pensa que a retórica do presidente está nas palavras. É na imagem criada para o cadidato que o presidente dialoga com a sociedade – até, é claro, que a platéia desperte dessa maresia de palavras, enjoada e sem direção [Fim].

Vá lá que se atribua o uso de um “recurso” retórico ao presidente, que de fato o tem, mas que se justifique a ausência de conteúdo pela estratégia comunicativa é dizer, sem tirar nem pôr, que o discurso (imagético) do presidente se identifica ao “populismo” evidente na imagem eternizada do candidato, que o povo reconhece como a protelação da esperança pela esperança da protelação a um pouco mais, para que se possa, ainda então, continuar esperando, que é o que se pode ter da frialdade mecânica de um candidato eterno: esperança perene.


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