janeiro 08, 2007

Muleta ecúmena

O geólogo Samuel Bowring, 53, do MIT (Massachusetts Institute of Tecnology) encabeça o projeto Earthtime (o “Tempo da Terra”), que pretende encontrar marcadores geocronológicos universais para integrar a coluna geológica das eras em todos os continentes. Assim se saberia exatamente onde estão os principais intervalos de cada era e período. Segundo ele, as datas relativas, que definem tempos a partir da informação contida nas rochas, comuns do calendário geológico, são um problema para os paleontólogos (! - poder-se-ia dizer até que são o trabalho dos paleontólogos, mas...). Kirk Johnson, paleontólogo do Museu de História Natural de Denver, também entende assim: “O Jurássico, por exemplo, é uma definição européia. O que é Jurássico na Europa pode não ser na China”, diz. Segundo o artigo “Projeto tenta ordenar a história da Terra” que saiu no JC/SBPC, aqui, as datações relativas criam paradoxos constrangedores, como a ocorrência de aves no Jurássico alemão e de dinossauros emplumados, que seriam em teoria os ancestrais das aves, encontrados em rochas aparentemente mais jovens, do Cretáceo chinês. Difícil é entender por que isto não é apenas encarado como um problema local, e daí tentar resolvê-lo. Um dos motivos para querer uma datação “absoluta” da Terra seria o de definir intervalos menores que 50 mil anos para poder perceber no registro geológico mudanças climáticas semelhantes as que estariam ocorrendo na Terra hoje. Mas isso pode ser um problema da redação da notícia no Yahoo!, já que não parece ter ligação ou a, pelo menos, relação não ficou clara. Já se consegue medir intervalos de apenas 100 mil anos, nada em termos geológicos. O problema é que não dá para entender o sentido desta cronologia miúda quando se diz que o objetivo é integrar datas em toda a Terra. O detalhamento para estudar intervalos pequenos para fazer comparações de períodos de mudança climática com as mudanças atuais não parece que tem muito a ver com o estabelecimento de marcadores universais na escala geológica. Fazer localmente esse esmiuçamento pode ser desejável, quando necessário, quando se identifica um esudo de caso promissor, como no caso do paradoxo dos dinos emplumados e do Jurássico da China. Difícil entender, por isto, como um único métodos pode fazer tudo. Browing fala (segundo matéria do JC) em usar cristais de Zircão para datar as rochas. Mas o mineral não é encontrado em todas as formações, residindo aí um dos problemas.

No caso acima, ou as rochas na China não são Jurássicas ou as aves surgiram na China. A investigação geocronológica é adequada neste caso para uma averiguação ou mesmo para solucionar definitivamente este problema. Recuperar trabalhos anteriores e buscar pontos obscuros ou negligências e os critérios de identificação podem ajudar também. Dizer, no entanto, sentir-se incomodado por ter que conviver com aparentes paradoxos é brincadeira! Não precisaria existir geologia se fosse de outro modo. O paradoxo é motivo de estudo, não de incômoco a uma classe profissional que tem em uma de sua incumbência justamente buscar dar respostas a estas questões. A datação certamente não acabará com o problemas de interpretação na história da Terra, nem serão nunca mais que uma muleta ou um “marcador de página” na história da Terra. Detestaria ter que concluir que os geólogos são analfabetos funcionais nessa matéria. Entendem de setores da gramática geológica e são péssimos em “literatura”? São analfabetos funcionais; editam livros que não sabem ler? E tudo que se faz é investigar onde estaríam os capítulos das folhas que desapareceram. Este homem é o que Orte y Gasset definuiu no seu A rebelião das massas como o “novo bárbaro”, embuçado na “faina mecânica de pensamento” técnico. A lembrar da negligência com os fundamentos e princípios do pensamento geológico que nunca chegaram a um esforço mais que diletante (no sentido pejorativo), este projeto “marca-página” poderia ser batizado de outro modo: “muleta ecúmena”, para lembrar de nossos medievos patrícios além-mar e o sentido do mundo habitado que tinham, olhando da orla da ilha de Toa a miragem de uma outra terra.


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