janeiro 24, 2007

Fenômenos meteoromórficos

Curiosa miscigenação esta da formação do halo solar de altas cirrustratus que ocorreu no dia 16 de janeiro, com a passagem do cometa McNaught, que alcançaria dois dias depois seu brilho máximo no hemisfério sul. A proximidade entre os dois fenômenos levou a outro fenômeno, o da síntese metamorfósica entre ambos. Pensou-se que o halo solar fosse produzido pela passagem do cometa, e houve quem falasse em sinais escatológicos. Invencionice à parte, dá para ver nisso algo como uma “causalística metonímica” (sic.), onde coisas diferentes viram “sinal” significativo um do outro: sendo o halo o consequente e o cometa o seu antecedente cósmico. Que isto ganhe força de “comunicação” e não de simples relação causal (que, de fato, não existe), é já aquela necessidade de no silêncio dos seres ainda assim buscar ouví-los. Houve já quem dissesse que as igrejas e os radiotelescópios buscam a mesma coisa no silêncio dos seres. Não é de hoje, a propósito, querer-se encontrar uma mensagem em luzeiros errantes, como foram os casos não raros de cometas agourentos ao longo da história. O poeta espanhol Antônio Machado escreveu certa vez, Quien habla solo espera hablar a Dios un día. É como se o céu cochichasse furtivamente significados a nós negados, e daí nossa atávica desconfiança do que nos vêm do céu. A própria meteorologia é já, na inerente fatalidade, o signo da fortuna, do destino que cabe a cada um. Daí não é de estranhar que o silêncio nos seja algo perturbador e prefiramos “ouvir” o diálogo rumorejante das coisas e nele qualquer sinal de uma revelação e por esse pensamento solto no ar, apanhar qualquer sonho de entendimento.

O caos no céu antes do homem é toda coisa indistinta, até o Logos ou Razão vir dar conta:

Antes do mar, da Terra, e céu que os cobre / Não tinhamais que um rsoto a Natureza: / Este era o Caos, massa indigesta, rude, / E consistente só num peso inerte / Das coisas não bem juntas as discordes, / Priscas sementes em montão jaziam; / [...].


Ar, e pélago, e Terra estavam mistos: / As águas eram pois inavegáveis, / Os ares negros, movediça a Terra / Forma nenhuma em nenhum corpo havia, / [...].


Um Deus, outra mais alta Natureza / À contínua discórdia enfim põe termo: / A Terra extrai dos Céus, o mar da Terra, / E ao ar fluido, e raro abstrai o espesso. / [...].


O universal Fator [Logos, Razão, Deus] também dissera: / Descei, ó vales, estendei-vos, campos, / Surgi, montanhas, enramai-vos, selva!”


Ovídio, Metamorfoses: Livro I, 5-437.


Foto: Mariana Correa/SEMMA v. Aires

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