janeiro 09, 2007

Exposer cobra privacidade da imagem pública

A exposer Daniela Sic.arelli ganha o direito de ter sua performance pornográfica indisponível para todos os brasileiros, com o bloqueio do site “You Tube”. Segundo o Yahoo! Notícia, “a decisão da Justiça tem como objetivo punir o YouTube por continuar a exibir o vídeo da apresentadora Daniella Cicarelli e o namorado Tato Malzoni na praia de Cádiz, na Espanha” [grifo meu]. O sistema gratuíto de downloads e uploads de vídeos, de comunidades aficionadas por raridades e toda sorte de bobagem que é o traço picaresco e nada raramente medonho da Internet, é retirado de cerca de 3 milhões de usuários. O desembargador Ênio Santarelli Zuliani determinou o bloquio do vídeo do casal com a “colocação do filtro na solicitação de acesso ou na entrada da resposta no website americano” inviabilizando todo o You Tube. A chapuletada era pra ser no You Tube, que, no entanto, continua acessível a todo o resto do mundo. A propósito, “resto do mundo” são Brasil, Irã e China que formam o pequeno grupo de países que transgridem censurar a Internet por justificativas tão boas quanto as de Fidel Castro pelo bem de seu “polvo” (sic.). A notícia já nasce fria, de tão fabulosa; e fábula é o que os gigantes adormecidos sonham que sejam pensamentos. Senão vejamos: a mulher vai a praia, que até onde sei na Espanha também é pública, bem como, portanto, a sua paisagem, e é filmada chupando o nariz do namorado – para resumir tudo. O filminho dessa cena bastarda, que não pertence a paisagens marinhas nem aqui, na Espanha ou na China, aparece no You Tube gratuitamente e é considerado o quê? Exposição de imagem pública? Imagem pública é o que a gente faz em público. Imagem privada é o que a gente faz (moderemos) em particular, em nosso domicílio. Privado é o que a gente faz fora de locais públicos, é “o que não é público”. Como, por favor, se pode dar direito por uso de imagem pública sem fins outros que a simples exposição? A nossa privacidade, exposta em local público é, portanto, um ato público. Em lugar da Srta. D. Sic. (!), por rigor, ter direito a tirá-lo de todos, deveria ela ser repeendida por expor imagem tão desgraciosa emergindo das areias como um periscópio que dá uma espiadela para ver se ninguém o vê, já mostando-se em grande vulto. A real corte das minorias superexpostas, que deveriam dar-se ao desfrute em áulicos recintos, desfila publicamente como o rei nu, orgulhoso da nobreza, reconhecido pelo populacho como a excentricidade nativa da alta corte (estando aí todo o reconhecimento que podem ter da realeza do rei). Do que se faz no ambiente nos salões palacianos, na vida íntima, vivem as cortesãs, mas deve-se uma boa dose de imaginação para tentar entender que uma “cortesã pública” (!) não seja, de fato, de ofício e gosto, como é o caso, senão coisa igual à “puta mundana” da comadre Joana[1], que faz por gosto da vida privada perfomance na vida pública. E tem gente que achava que seis dedos era algo esquizito (!).

Notas
1. Comadre Joana é personagem do livro Fragmentos de Uma Paixão da deputada Esther Grossi (PT/RS), de memórias de sua infância em São Vicente do Sul, na “picada dos Farrapos”.

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