dezembro 22, 2006

O lugar-comum do melhor futebol

A contradição é um troço terrível; tem lá efeito desde coisa abstrusa igual a enuciar o contrário da intenção explícita, como é o caso, semelhante ao que disse o minoano Epiménides, ao se dizer Estou mentindo!, que não deixa claro, nem de longe, se estou mentindo de fato e portanto digo a verdade, que estou mentindo de fato, por conseguinte não estou mentindo, do que segue, logicamente, que estou mentindo, e assim ad infinitum. Não é diferente em nenhum lugar ou tempo. A contradição antinômica anula o que se está postulando. Um chutão, uma casquinha de cabeça, outra casquinha de cabeça, Iarlei domina a bola, se livra do defensor, espera o companheiro (Gabirú) e passa a bola que, como um chute tosco faz o gol. Este lance define o maior título do melhor esporte do mundo. Um certo contrangimento leva a que se possa argumentar que futebol de resultado não é futebol, é coisa menor, é um tipo de pragmatismo de quem não gosta de futebol, mas que gosta é de vencer. O mais vistoso futebol do mundo, o espanhol Barcelona, é derrotado pelo pragmatismo.

Ninguém discute que o time catalão seja o “melhor” futebol do mundo, o mais vistoso, enquanto o melhor time é, por título, outro. Isso deveria diminuir o título d“o melhor time”, que joga o jogo para vencê-lo, enquanto o time espanhol joga “o melhor futebol” que pensa que deveria lhe dar o maior título de melhor time. Não aconteceu assim. O melhor futebol não é o do melhor time; o melhor time foi o que aderiu a uma forma pragmática de jogo, que é o “jogo do jogo”, que é a coisificação do jogo. Nada o vem de fora; uma idéia de futebol se confronta com o pragmatismo, que seria “idéia nenhuma de futebol”, se já não fosse. Mas é uma idéia mínima, é a menor idéia que se pode ter de futebol. É o jogo jogado na partida e com o futebol reduzido à estratégia de jogo. É o mínimo suficiente para não se perder por não se ter entrado em campo. São extremos, e eles se encontraram no campeonato mundial de clubes, tendo como vencedor o mínimo. Mas por que o mínimo jogo suficiente (que controla ao máximo o acidente e a criação aretística) venceu o “melhor” futebol do mundo? Ter uma idéia de futebol, que se admite correta, ter o melhor desempenho possível pelo maior número de tempo e reiteradamente e, ainda assim, não ser o melhor futebol do mundo de fato, tem razões ignoradas no modo como este nos aparece. Pois justamente, apareceu como uma declaração contraditória, quase antinômica, ao apresentar o melhor futebol do mundo como um lugar-comum. Contra o mínimo pragmático, o “melhor” precisaria ser mais que o conceito do “melhor” demonstrado à maneira dos geômetras, deveria ser o melhor “de fato”, mas o que se viu foi um “melhor” cheio de luagres-comuns, de movimentos que já se sabiam melhores, sem apresentar o imprevisível, o primor da arte, a mecânica de jogo, a adaptação tática, a dinâmica orgânica que confunde um único jopgador com o time inteiro, que combate o mínimo com o máximo que há de inusitado e de preciso ao mesmo tempo – às vezes ora preciso e certeiro, às vezes impreciso e genial (que faz aparecer o que ninguém via). O melhor futebol esbarrou na pragmática porque não há um “melhor” feito de lugares-comuns, um melhor que não preveja que, num mundo onde a contingência existe necessariamente, o melhor não pode ser definido de antemão, senão somente a posteriori, quando, uma vez equiparadas as máquinas, o brilho individua, a criação de um espaço, de uma passagem, de uma curva de trajetória impensada, ou o acidente, rompem a estrutura coesa do mínimo pragmático levando o melhor aonde deveria sempre estar.

Por fim, o time catalão perdeu porque entrou em contradição com o que é, que é só o que poderia levar o mínimo pragmático a ser o melhor. Uma clara inversão natural, devido a um destes acidentes cósmicos de uma metafísica esdrúxula, levaram a que o melhor futebol do mundo seja hoje o mínimo jogo suficiente.


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