novembro 19, 2006

Nota exploratória

Eis o espírito da coisa:

Ninguém pode ser mais feliz [...] do que um filósofo que lê nesse grande livro colocado por Deus ante nossos olhos. É dono das verdades que descobre; alimenta e eleva a alma; vive tranqüilo; nada teme dos homens, e a sua extremosa mulher...” se a evita com seus chiliques! – o demais aqui ficaria sem contexto (Voltaire, da boca de Zadig).

O “livro da natureza” é conhecido da geologia, é um dos seus mitos mais fundamentais na forma de uma metáfora de incrível poder de representação. A metáfora se desenvolve sobretudo na interpretação bíblica do Gênesis como correspondendo à ordem natural. As páginas do livro da natureza são como o documento dos historiadores, e foi Francis Bacon (1561-1626) quem disse que se deve “inquirir a natureza” ao modo como se faz nos tribunais. Mais que inquirir a natureza, há qualquer coisa “profética” nas especulações das ciências.

Aí está não apenas um princípio de investigação, como rudimentos de uma filosofia de ciências como as que o historiador Carlo Ginzburg juntou em um artigo1 famoso de 1979, onde coloca sob um mesmo procedimento racional história, arqueologia, geologia, astronomia física (ou astrofísica) e paleontologia – isto é, a formulação de “prognósticos retrospectivos”. Tal ferramenta visionária se ligam para Ginzburg às comunidades de caçadores primitivos pela experiência adquirida por estes na arte de interpretar rastros (Ginzburg, p. 100). A hipótese é a seguinte: “O caçador pode ter sido o primeiro a contar uma história” porque apenas caçadores sabiam como interpretar uma seqüência coerente de eventos a partir de obscuros (e quase imperceptíveis) sinais deixados pela presa” (Idem). “Interpretar” era justamente o que Charles Lyell (1797-1875), celebrado como um dos pais da moderna geologia, queria que se fizesse com o registro geológico. Talvez algo que não fica evidente de todo na leitura do caçador é ele poder lançar mão de uma variedade de “leituras” possíveis, de ver o que não é observável, porque se há tendências, comportamentos (ou, diríamos, leis de rastreamento) pelos quais se refazem passos, por situações conhecidas, é para se chegar a prever a ordem dos acontecimentos de um evento sem tê-lo jamais observado. Os prognóstico retrospectivos tem sentido “no fato de que se trata de uma apreensão daquilo que se localiza fora da esfera do conhecimento imediato; a visão daquilo que, para o sentido natural do profeta, é invisível [grifo meu] (Huxley apud Ginzburg, p. 11957).

Para Lyell o princípio de investigação era outro, daí insistir na fórmula que Huxley consagraria à geologia pouco antes de sua morte: dever-se-ia investigar o que está atrás das aparências literais (ibid.) contra a aparente brusquidão que a observação direta mostrava. Outra passagem digna de ser notada é quando Gould reputa a Lyell a defesa de que os fundamentos da teoria geológica deveriam ser impostos aos registros literais, que os dados imperfeitos não permitiam observar na ordem natural das coisas. O que vemos aqui é recorrente na observação do antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, que disse algures que a natureza melhor se mostra na maneira como gosta de se ocultar.

Outro apontamento relevante pode ser encontrado na contracapa de Aristóteles em nova perspectiva – Introdução à teoria dos quatro discursos (2006), do Filósofo Olavo de Carvalho. Ali, para esclarecer a compreensão que chegou sobre um ponto central capaz de dar unidade ao pensamento de Aristóteles, O.C. escreve: “se por compreensão se entende o ato de captar a unidade do pensamento de um homem desde suas próprias intenções e valores, em vez de julgá-lo de fora; ato que implica respeitar cuidadosamente o inexpresso e o subentendido, em vez de sufocá-lo na idolatria do “texto” coisificado, túmulo do pensamento” [grifo meu]. O mesmo princípio aplicado às disciplinas elencadas por Ginzburg faz surgir o procedimento que se atribui comum a todas elas e em tudo que se disse até aqui, a busca por aquelas interpretação de viés que deu a Sócrates conhecimento do conhecimento, e que poderia dar à geologia e às demais disciplinas, bem como ao discurso ambientalista, certa unidade perdida. Unidade de pensamento, para, daí, já não ser apenas um pensamento, mas uma filosofia da ciência e que, por isto possamos descobrir, como Paul Válery, que “as especulações feitas com rigor conduzam a mais estranhezas e perspectivas possíveis e inesperadas que a fantasia livre – que a obrigação de coordenar seja mais produtora de surpresa que o [próprio] acaso”.


notas

1. Carlo Ginzburg, “Chaves do mistério: Morelli, Freud e Sherlock Holmes” (publicação original in: A. Gargani (ed.), Crisi della ragione, 1979. Apud Umberto Eco & Thomas A. Sebeok, O signo de três. São Paulo: Editora Perspectiva, 1983.

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